Particulares nus

André de Sousa Silva

ResumoO presente trabalho tem por objetivo fazer um debate sobre a tese dos particulares nus (bare particulars) e seus críticos. Buscamos aqui discutir como se apresenta hoje a tese dos particulares nus a partir de textos dos proponentes da tese. Na sequência apresentaremos as críticas mais recorrentes à proposta dos particulares nus e como estas críticas surgem com base no realismo, e mais especificamente a partir da teoria aglomeracionista, e visam desacreditar o estudo de qualquer substrato particular. Por fim, buscaremos por respostas às críticas e como se apresenta a defesa da tese a partir, também, da literatura atual.

Palavras-chave: Particular; Nu; Substância; Substratum; Identidade.

Abstract: The present work aims to present the debate of the bare particulars proposal and its critics. We seek here to discuss how the thesis of bare particulars is presented today by taking the works of proponents of this thesis. In the sequence we will present the most current critics that rise upon the thesis and how these criticisms arise based on realism, and specifically from defenders of the bundle theory, and aim to discredit the study of any particular substratum. Finally, we will seek answers to the criticisms and how the defense of the thesis is presented, grounding also from the current literature.

Keywords: Particular; Bare; Substance; Substratum; Identity.

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Uma abordagem reducionista ao problema da identidade dos indiscerníveis,

João António Faria e Silva

Resumo: Pretendo defender a tese de que a verdade de qualquer proposição acerca do número de particulares existentes no mundo é superveniente a partir da verdade de todas as proposições exclusivamente acerca de universais (i.e., propriedades e relações). Se esta tese estiver correta, todos os factos acerca da individuação dos particulares são redutíveis a factos exclusivamente acerca de universais, não havendo individuação primitiva de particulares. Apresento dois argumentos contra a possibilidade de individuação primitiva. O primeiro é que os particulares primitivamente individuados são teoricamente redundantes, já que o carácter qualitativo de qualquer mundo possível pode ser exaustivamente descrito falando apenas de universais. O segundo é que os particulares primitivamente individuados levantam dúvidas céticas radicais acerca do número de particulares com que nos confrontamos. A teoria aglomeracionista é a variedade mais comum de reducionismo acerca do número de particulares, mas pretendo defender também que esta não é a única variedade possível. Mais concretamente, apresento uma alternativa segundo a qual os particulares são individuados por relações espaciais. Esta alternativa, contrariamente à teoria aglomeracionista, não nos compromete com o controverso princípio da identidade dos indiscerníveis, mas implica uma conceção transcendente de universais.

Palavras-chave: Particulares Universais, Identidade numérica, Individuação, Reducionismo, Teoria aglomeracionista, Princípio da identidade dos indiscerníveis.

Abstract: I aim to defend the thesis that the truth of any proposition about the number of particulars that exist in the world is supervenient upon the truth of all propositions exclusively about universals (i.e., properties and relations). If this thesis is correct, all facts about the individuation of particulars are reducible to facts exclusively about universals, and there is no primitive individuation of particulars. I present two arguments against the possibility of this kind of primitive individuation. The first is that primitively individuated particulars are theoretically redundant, since the qualitative character of any possible world can be exhaustively described if we talk only about universals. The second is that the possibility of primitively individuated particulars raises radical skeptical doubts about the number of particulars with which we are acquainted. The bundle theory is the most common variety of reductionism about the number of particulars, but I also want to defend that it is not the only possible variety. More specifically, I present an alternative according to which particulars are individuated by spatial relations. This alternative, in contrast to bundle theory, does not commit us to the controversial principle of the identity of indiscernibles, but it implies a transcendent conception of universals.

Keywords: Particulars; Universals; Numerical identity; Individuation; Reductionism; Bundle theory; Principle of the identity of indiscernibles.

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O enigma da existência:
defesa da abordagem rejeicionista
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Luís Carlos Vicente Ramos

ResumoO principal objetivo desta comunicação é defender, contra Nicholas Rescher, a abordagem rejeicionista como solução para o enigma da existência, o qual é formulado pelo filósofo através da questão: porque existe algo em vez de nada?
Com esse objetivo em vista, dividirei esta comunicação em duas partes:
Na primeira parte, a fim de defender a viabilidade dessa abordagem, vou dar três passos: o primeiro passo será apresentar a minha própria formalização do argumento de C. G. Hempel, o qual Rescher considera ser o principal argumento para defender esta abordagem; o segundo passo será apresentar a minha própria formalização do contra-argumento de Rescher a esse argumento; e o terceiro passo será apresentar uma crítica a esse contra-argumento no sentido de defender o argumento de Hempel.
Na segunda parte, a fim de propor um novo argumento a favor dessa abordagem, vou, novamente, dar três passos: o primeiro passo será explicar por que considero ser necessário apresentar um novo argumento; o segundo passo será defender as três premissas que constituem o argumento; e o terceiro passo será formalizar o argumento. 

Palavras-chave: Abordagem rejeicionista; Algo; Existência; Nada; Princípio da unidade essencial dos contrários.

AbstractThe main goal of this lecture is to defend, against Nicholas Rescher, the rejectionist approach as a solution to the riddle of existence, which is formulated by the philosopher through the question Why is there something rather than nothing?
With that goal in mind, I will divide this lecture into two parts:
In the first part, in order to defend the viability of this approach, I will take three steps: the first step will be to present my own formalization of C. G. Hempel’s argument, which Rescher considers to be the main argument for defending this approach; the second step will be to present my own formalization of Rescher’s counterargument to such argument; and the third step will be to criticize such counterargument, in the sense of defending Hempel’s argument.
In the second part, in order to propose a new argument in favour of this approach, I will take, again, three steps: the first step will be to explain why I consider necessary to present a new argument; the second step will be to defend the three premises that constitute the argument; and the third step will be to formalize the argument.

Keywords: Rejectionist approach; Something, Existence; Nothing; Principle of essential unity of opposites.

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Against Theistic Modal Realism:
An Argument from Impossible Worlds
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Nuno Maia

Resumo: O realismo modal de David Lewis (On the Plurality of Worlds, 1986, Oxford: Basil Blackwell) propõe uma pluralidade de mundos possíveis interpretados como totalidades mereológicas concretas. Na filosofia da religião, o realismo modal teísta (TMR) amplia a proposta de Lewis ao adicionar um Deus teísta que existe nalguma parte do pluriverso. Esta teoria é interessante pois lida de uma forma persuasiva com muitos dos difíceis desafios ateístas. Contudo, neste artigo aponto para uma desvantagem da proposta: a incapacidade da teoria em comportar mundos impossíveis concretos. Nesta comunicação argumento que se TMR for alargado com mundos impossíveis concretos então o Deus teísta torna-se num objeto inconsistente, levando a uma revisão drástica do teísmo. Em seguida, avalio algumas respostas possíveis ao meu argumento e provo que são insuficientes. Concluo que não há uma extensão coerente do TMR que comporte mundos impossíveis concretos.

Palavras-Chave: Realismo Modal; Teísmo; Mundos Impossíveis; Propriedades Intrínsecas; Teoria das Contrapartes

Abstract: David Lewis’ theory of Modal Realism (On the Plurality of Worlds, 1986, Oxford: Basil Blackwell) posits a plurality of possible worlds construed as concrete mereological wholes. In the philosophy of religion, Theistic Modal Realism (TMR) extends Lewis’ framework by adding a theistic God existing somewhere in the pluriverse. The view is highly attractive for it persuasively handles many of the difficult challenges to theism. Still, in this paper I point to a downside of the proposal: the failure to accommodate concrete impossible worlds. I argue that if TMR is extended with concrete impossible worlds then God becomes an inconsistent object, urging a too drastic revision of theism. After, I address some potential objections to my argument and find them wanting. I conclude that there is no coherent extension of TMR with concrete impossible worlds.

Keywords: Modal Realism; Theism; Impossible Worlds; Intrinsic Properties; Counterpart Theory.

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Negotiating Value,

Diogo Santos

Resumo: Vários desacordos avaliativos são persistentes—i.e. os mesmos subsistem, apesar de as partes em desacordo concordarem acerca de todos os factos sobre a matéria em disputa. Recentemente, proponentes de negociações metalinguísticas propõem explicar a persistência e a normatividade de tais desacordos apelando ao uso metalinguístico de adjetivos avaliativos. Por conseguinte, de acordo com proponentes de negociações metalinguísticas, desacordos persistentes podem ser explicados como desacordos acerca de como devemos usar um termo ou expressão. Tal permite argumentar que adjetivos avaliativos não são literalmente avaliativos, na medida em que, quando a agente os usa avaliativamente, está a usá-los metalinguisticamente, e o seu conteúdo avaliativo é determinado pragmaticamente—pelos propósitos e fins de agentes numa determinada situação. 
Neste artigo argumento que as negociações metalinguísticas não contam a história toda, mostrando que não explicam a importante conexão entre termos avaliativos e as interações sociais de agentes acerca de valor. Portanto, há razões para considerar adjetivos avaliativos como sendo semanticamente avaliativos.

Palavras-chave: Negociação metalinguística; Conteúdo avaliativo; Desacordo persistente; Adjetivos avaliativos; Uso metalinguístico.

Abstract: Many evaluative disagreements are persistent—i.e., they subsist, although parties disagreeing agree on all the facts about the matter under dispute. Recently, proponents of metalinguistic negotiations have explained the persistence and the normativity involved in evaluative disagreements as a result of agents using evaluative adjectives metalinguistically. Hence, according to the metalinguistic negotiations framework, persistent disagreements may be explained as disagreements about how one should use a word or expression. This allows one to claim that evaluative adjectives are not literally evaluative, for when one deploys them evaluatively one is using them metalinguistically, and their evaluative content is pragmatically determined—by the agents’ purposes and goals in the situation.
In this paper I argue that metalinguistic negotiations cannot be the whole story by showing that an important connection between value-words and agents’ social interactions about value goes missing if one denies that evaluative terms are semantically evaluative. Hence, one has reasons to consider evaluative adjectives as semantically evaluative.

Keywords: Metalinguistic negotiation; Evaluative content; Persistent disagreement; Evaluative adjectives; Metalinguistic usage.

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The Agency at the Margins:
Hermeneutical Injustice Revisited
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Camila Lobo

Resumo: O trabalho de Miranda Fricker sobre injustiça hermenêutica tem sido criticado em virtude da sua desatenção à existência de recursos hermenêuticos alternativos, desenvolvidos por grupos não-dominantes. Neste artigo, defendo que essa crítica pode ser desenvolvida no sentido de considerar casos em que, apesar de não existirem recursos hermenêuticos alternativos, os sujeitos marginalizados mantêm a capacidade de resistir a interpretações dominantes das suas experiências. Sugiro ainda que as limitações da abordagem original de Fricker se devem à sua atribuição de casos de injustiça hermenêutica a uma questão de preconceito, bem como à sua recetividade a uma conceção neutra de razão, que deve ser rejeitada por projetos filosóficos liberatórios.

Palavras-Chave: Injustiça epistémica; Feminismo; Epistemologia social; Filosofia da linguagem

AbstractMiranda Fricker’s account of what is involved in cases of hermeneutical injustice has been the object of a prominent strand of criticism charging her of neglecting alternative hermeneutical resources developed by non-dominant groups. In this article, I argue that the critique might be extended to consider cases in which, although alternative hermeneutical resources are not in place, marginalized subjects can still be said to resist dominant interpretations of their experiences. I briefly suggest that Fricker’s failure to account for marginalized subjects’ agency can be traced back to her attribution of hermeneutical injustice to a matter of prejudice and to her reliance on a neutral account of reason, which ought to be rejected by liberatory philosophical projects.

Keywords: Epistemic injustice; Feminism; Social epistemology; Philosophy of language.

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On Wittgensteinian Hinge Epistemology: Coliva’s Framework reading,

Ricardo N. Henriques

AbstractThe goal of this paper is to present the main arguments of Annalisa Coliva’s hinge epistemology. There are several readings of Wittgenstein’s metaphor of “hinges”. In this paper I will explore one of them (the framework reading) and present its main arguments. I will start by contextualizing the debate of hinge epistemology within Wittgenstein’s reflections on On Certainty. From there I will present Coliva’s arguments and her defence of the framework reading. I will try to argue that one should follow Coliva’s reading and understand Wittgenstein’s remarks about hinges as remarks about their normative role as rules. This paper is supposed to be an introductory part of a wider discussion I will develop in my PhD thesis on Wittgensteinian epistemology of belief.

Keywords: Wittgenstein; Coliva; Epistemology; Hinges; Normativity

Resumo: O objetivo deste artigo é apresentar os principais argumentos da epistemologia dobradiça de Annalisa Coliva. Tendo em conta a variedade de leituras da metáfora de Wittgenstein sobre “dobradiças”, irei aqui apresentar em detalhe uma dessas leituras (a leitura normativa, ou “framework”). Além de apresentar o contexto da obra Da Certeza em que surgem as “dobradiças”, irei apresentar os argumentos de Coliva em favor da sua leitura normativa. Argumentarei em favor da posição de Coliva, defendendo uma leitura das notas de Wittgenstein sobre “dobradiças” como reflexões acerca do seu papel normativo como regras. Este artigo foi elaborado com vista a ser integrado numa tese de doutoramento sobre epistemologia da crença de Wittgenstein.

Palavras-chave: Wittgenstein; Coliva; Epistemologia; Dobradiças; Normatividade

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